Competências Linguísticas da Criança

| Emergência da Literacia no Pré-escolar |

n Escrita;

n aspectos conceptuais;

n concepções precoces.

Palavras-chave

O documento trata sobre a evolução da escrita da criança.

As autoras classificam as primeiras tentativas de escrita das crianças, diferenciadas das tentativas de desenhar, de dois tipos: traços ondulados contínuos, que representam a continuidade da letra manuscrita, ou uma série de pequenos círculos e linhas verticais que representam a descontinuidade da letra de imprensa.

As autoras definem cinco níveis sucessivos de evolução da escrita da criança. Estes níveis foram definidos a partir dos resultados obtidos de um trabalho de investigação que as autoras fizeram com crianças dos 4 aos 6 anos. No nível 1 a criança reproduz os traços típicos da escrita que identifica como forma básica. Neste nível a interpretação da escrita não se relaciona com as diferenças objectivas do resultado, uma vez que as escritas assemelham-se muito entre si, mas com a intenção do escritor. Logo apenas o escritor pode interpretar a sua escrita. No mesmo nível podem aparecer tentativas de correspondência entre a escrita e o objecto referido, nomeadamente entre aspectos quantificáveis do objecto e aspectos quantificáveis da escrita. Assim se o objecto é maior, mais comprido, tem mais idade ou há maior número de objectos referidos existe um maior número de grafias, grafias maiores ou maior comprimento do traçado total. Neste nível se por vezes existem dificuldades em diferenciar as actividades de escrever e desenhar, noutras o desenho parece surgir como de apoio à escrita, como uma garantia de significação da última. Um dos traços evidentes ainda neste nível é a ordem linear, os caracteres aparecem alinhados. No nível 1 as autoras assinalam ainda que a leitura do escrito é global e que existe uma quantidade mínima de grafismos variados para escrever algo (mínimo de 3).

O nível 2 caracteriza-se pela atribuição de significados diferentes a escritas objectivamente diferentes. Neste nível as grafias são cada vez mais próximas às letras e segue-se com ideia de que são necessários uma quantidade mínima de grafismos variados para escrever algo. Em algumas crianças a disponibilidade de formas gráficas é ainda limitada e a única maneira para responder a todas as exigências que a escrita lhe coloca é mudar a posição dos mesmos na ordem linear. Assim passam a usar o mesmo reportório de elementos que conhecem variando as posições e os tamanhos para dizer coisas diferentes. Descobrir que duas ordens diferentes dos mesmos elementos resultam em duas totalidades diferentes é uma aquisição cognitiva notável. No decurso deste desenvolvimento a criança pode começar a adquirir modelos estáveis de escrita, formas fixas que é capaz de reproduzir mesmo sem o modelo, nomeadamente o nome próprio. Porém nesta fase a mensagem é codificada como um todo, a escrita não é divisível em partes, ou seja, as partes da escrita não correspondem a partes do nome. A correspondência entre a escrita e o nome é ainda global. A aquisição das formas fixas e estáveis é influenciada por contingências culturais e pessoais, e esta aquisição pode originar duas reacções: bloqueio, profundo ou momentâneo, que acontece quando a criança aprende a escrever imitando a escrita de outros, não havendo possibilidade de escrita na ausência desse modelo; ou a utilização desses modelos para prever novas formas escritas. Neste nível regista-se uma maior utilização da escrita em letra de imprensa do que manuscrita.

O nível 3 é caracterizado pela tentativa de dar um valor sonoro a cada uma das letras que compõem a escrita. Nesta tentativa a criança passa por um período evolutivo importante a que se dá o nome de hipótese silábica em que cada letra ou grafia representada vale pelo som de uma sílaba do nome. Supera-se a etapa de uma correspondência global entre a forma escrita e a expressão oral atribuída, para passar a uma correspondência entre partes do texto e partes da expressão oral. Quando a criança começa a utilizar a hipótese silábica duas das características da escrita anterior tendem a desaparecer momentaneamente: as exigências de variedade e quantidade mínima de caracteres. A hipótese silábica é uma construção da criança que pode coexistir com formas estáveis aprendidas globalmente. No entanto e quando se trata de uma frase é importante ressaltar que a cada letra a criança faz corresponder as palavras que a compõe e não as sílabas.

O nível 4 é caracterizado pelos conflitos que advêm da a passagem da hipótese silábica para a alfabética. Até aqui a criança elaborou duas ideias que resiste em abandonar: que é necessário uma certa quantidade de letras para que algo possa ser lido e que cada letra representa uma das sílabas que compõem o nome. O meio também lhe ofereceu um repertório de letras, uma série de equivalentes sonoros para várias delas e uma série de formas fixas estáveis. Pelo conflito que se regista entre a hipótese silábica e a exigência da quantidade mínima de grafias e entre as formas gráficas que o meio lhe propõe e a leitura dessas formas em termos de hipótese silábica, torna-se difícil para a criança coordenar as múltiplas hipóteses que foi elaborando e por isso ela começa a ter necessidade de ir mais além. A escolha das letras para representar os sons da linguagem oral deixa de ser arbitrária e a escrita começa a ir além da representação da sílaba, apesar de não representarem ainda todos os sons da palavra. É assim que a criança passa para o nível seguinte.

O nível 5, o nível da escrita alfabética, é o final desta evolução. Neste nível a criança já compreendeu o princípio alfabético do nosso código escrito, ou seja, que a cada grafema corresponde um fonema, mesmo que não saibam como esse grafema se desenha. A partir deste momento a criança apenas se confrontará com as dificuldades próprias da ortografia, nomeadamente nas grafias que correspondem a vários valores sonoros ou nas distintas grafias que correspondem a um mesmo valor sonoro.

 

Comentário

Pegar numa folha, num lápis e garatujar é uma actividade que as crianças gostam de fazer, imitando os adultos que já viram escrever. Se inicialmente a criança escreve sem um significado, não tendo compreendido ainda que a escrita codifica uma mensagem, ao fim de algum tempo a situação muda e entram numa nova fase que representa uma grande evolução na aprendizagem da linguagem escrita: compreendem que a escrita tem um significado. A partir daí as suas garatujas passam a assumir um significado, a criança garatuja com a intenção de transmitir uma mensagem, o que não acontecia anteriormente. E assim as suas garatujas vão-se aproximando cada vez mais das letras e da escrita convencional, sobretudo se a criança viver num meio que lhe é favorável à aquisição desta aprendizagem.

 Mas para que tal possa acontecer é necessário primeiro conhecer e perceber o verdadeiro valor das garatujas das crianças e entendê-las como um ponto de partida para a criança avançar na descoberta da linguagem escrita e depois criar um ambiente favorável, rico em oportunidades que permitam à criança progredir na aprendizagem do sistema escrito. No entanto para isso e para que o apoio que possamos dar seja o mais adequado possível é necessário ter conhecimento das fases da evolução da escrita da criança.

Autor: Emília FERREIRO e Ana TEBEROSKY

Resumo

Portefólio

Texto completo em anexo físico no Dossier. Anexo 5.

FERREIRO, Emília e TEBEROSKY, Ana (1991): Psicogénese da Língua escrita, Porto Alegre, Artes Médicas. Pág. 181-214